sábado, 3 de Maio de 2008

Delícias Marinhas

CAPÍTULO 1


Da manhã à noite deliciava-me com o néctar das mais belas flores. Depois, inclinava-me sobre as estas águas profundas e incertas e chamava pelos seus nomes. Eram nomes impronunciáveis na língua humana e geralmente acabavam em “el”, tal como os nomes dos seus primos, os anjos. Lembro-me vagamente, mas ainda me lembro, costumavam demorar algum tempo e, graças ao meu coração impaciente de jovem voltava a chamar pelos seus nomes. Aí elas apareciam, o seu corpo nu coberto por uma cabeleira esverdeada e as suas caldas escamudas, que em muito me faziam lembrar as de um peixe exótico, eram compridas, fortes e flexíveis para poderem fugir em caso de extremo perigo. Mas isso era uma coisa rara, o normal era passarmos as tardes inteiras juntos. Eu penteava os seus cabelos cuidadosamente, sabia que tinha que ter precaução, pois esses seres facilmente interpretavam uma palavra ou um acto mais descuidado como um insulto, e ora podia estar nas suas boas graças como estas podiam mergulhar para o fundo do mar e desaparecer eternamente de meus olhos, como fantasmas ou assombrações. Naquela altura presumi que, embora já tivesse ouvido falar de contos em que tal coisa acontecera, que isto era impossível. Achava-me diferente, não por ser mais astuto que o normal mas sim por ter sangue delas a correr pelas minhas veias. Embora tivesse cabelo acastanhados, olhos escuros e pernas tipicamente humanas, sereias eram sereias e como tal conseguiam facilmente sentir que eu era nada mais que um dos seus irmãos. Não costumava haver muitos homens e por isso mesmo elas tinham especial atenção em mim. Tanto que, quando eu era ainda criança, estas aproximavam-se curiosamente da beira da minha janela, que se situava ao pé do mar, e cantavam lindas melodias para mim. De início tive medo, um medo obscuro e sinistro que me povoou o coração derradeiramente, mas, como se costuma dizer, tudo vai e tudo vem. Pouco a pouco comecei a vê-las não como criaturas com dentes afiados e sem alma, como me davam a crer na minha aldeia, mas sim como anjos com calda de peixe. Cheguei a gostar tanto delas que comecei a passar a maior parte do meu tempo a seu lado. Costumávamos nadar em conjunto, os seus corpos eram ágeis e feitos tanto para deslizar sobre as águas como para mergulhar e atravessar o mais negro dos oceanos, como uma flecha atravessa o coração. Eu podia acompanhá-las, não tão bem como estas claro está mas, graças aos meus genes aquáticos, aguentava debaixo da água mais tempo do que qualquer homem normal. Nunca soube dos meus pais, nem nunca perguntei às sereias, calculava que a sua história fosse a de um amor impossível, inalcançável e, como muitos com um final infeliz e trágico. Mas mesmo ciente disso cometi um erro, aproximei-me cada vez mais de uma das damas da água, fiz-lhe juras de amor, engravidei-a e de lá nasceu um forte e robusto tritão varão. A princípio caí ainda mais nas boas graças das sereias, à muito que não tinham um macho reprodutor e era por isso que o seu número decrescia com o passar do tempo. E quanto ao bebé chamaram-no Ariel, era o nome mais simples que podiam ter encontrado para que eu o entendesse e conseguisse prenunciar-lo o mais claramente possíveis. Untaram-no de um estranho perfume marinho e enfeitaram-no com pérolas e algas. Era maravilhoso poder vê-lo crescer alegre e despreocupado com a vida como a maioria das crianças normais. Quando não estava com a sua mãe, uma sereia mais bonita que o normal e com uma pelo alva como a neve, estava acompanhado pelas suas outras “mães” que sem dúvida que o adoravam como um filho. Eu passava a noite na minha casa, a mesma casa na qual tinha passado a minha infância, crescido e na mesma casa na qual iria envelhecer. De dia, juntava-me a ela e ao meu filho que rapidamente aprendia o dom da música e da arpa. Orgulhava-me muito dele, sinceramente não sei o que fiz, será que elas só me queriam para ter este filho? Não sei ao certo mas um dia elas desapareceram sem deixar rasto. O meu coração embrulhou-se numa penumbra, não conseguia sequer prenunciar uma palavra. Na aldeia todos diziam que eu tinha sido enfeitiçado por uma bruxa que me enlouquecera. E talvez fosse verdade.... quem sabe?
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