
meses que era assombrado pela tua voz fria, percorria minha mente e sussurrava-me ao de leve para, junto com meu amado pai, abandonar esta casa e todo o terreno que a rodeava, entregá-la à natureza e deixar que esta se recompôs-se como anteriormente. Mas recompôs-se de quê? Impossível de qualquer forma! Embora estivesse completamente convencido que eras omnisciente e que já mais seria capaz de me libertar de ti preferiria até morrer a entregar a casa onde minha mãe tinha crescido, tornando-se mulher e decidido unir laços com meu pai e criar uma família. Eu sabia o quanto ela a adorava, passava manhãs a ver as rosas, o sol e as formigas que por lá passavam atarefadas. Tinha morrido de doença, calmamente, pelo menos tinha sido isto que o médico nos dissera com o seu ar sério e despreocupado habitual de todos os médicos. Felizmente já era um homem quando tal acontecera mas não pode deixar de verter lágrimas como nos meus tempos de infância quando chegava a casa com a roupa suja e completamente exausto. Isto, porque tal como minha adorada mãe sempre tinha sido doente eu também o era. Frequentemente tentava mostrar aos outros miúdos que era tão rápido e forte quanto estes e acabava na cama, com minha mãe debruçada sobre mim a chorar e com meu pai a gritar com o médico. Mas de qualquer forma estes tempos já tinham passado, agora era um homem, que, embora pálido e mais fraco que o habitual sabia pensar por minha própria cabeça e tirar conclusões acertadas. E nesta altura achei que a melhor coisa a se fazer era falar com meu pai acerca de ti mas ele de nada fizera, acho que ele não acreditou em mim, temia que tivesse ficado insano assim como um parente afastado meu. Mas afinal que esperava eu? Ouvia vozes constantemente, nem durante a noite tu me deixavas descansado, descobrias brechas em minha mente, mergulhavas no mais profundo do meu ser e entravas em meus sonhos, aterrorizando-me com tua voz melodiosa, típica das mulheres. Constantemente acordava em devaneios e gritava amedrontado por ajuda mas de nada servia. Quantas vezes o médico foi a minha casa, quantas vezes este disse que os meus ataques de loucura em nada tinham haver com a minha doença e quantas vezes vi-o a puxar meu pai para um canto com uma cumplicidade habitual de quem já o conhece à muito tempo e com uma voz de quem tem pena mas que acha que não à nada a fazer reconfortando meu pai e dizendo que eu sempre tinha tido “cabeça fraca” tal como minha mãe. Mas desde quando minha mãe era fraca de espírito ou até mesmo louca? Porque eles não entendiam que apenas esta era diferente e via as coisas de outra forma? Foi aí que me comecei a enclausurar-me cada vez mais, meu pai e o médico agora eram inimigos, e meus amigos não eram de confiança, olhavam para mim como quem tem pena e eu era incapaz de suportar este olhar. Agora só me restava tu, abri completamente minha mente a ti, deixei que transpusesses as minhas recordações e agora era constantemente invadido por teus sussurros. Eras já uma presença habitual, come se fosse-mos amigos. De certa forma sentia-me como que sempre te tinha conhecido, e, pouco a pouco os laços foram tornando-se mais fortes. Era capaz de ver agora a tua figura como uma aparição reluzente. Teus cabelos loiros caiam por tua face pálida e teus olhos estavam sempre cheios de lágrimas, como um rio incerto. Mas o teu vestido sem adornos, branco e comprido estava constantemente manchado de um sangue vermelho escuro e era isso que mais me assustava. Sim, aquele sangue que percorria teu belo corpo e os teus olhos cobertos de lágrimas metiam-me pena e fazia-me lembrar a dor que também eu tinha sentido quando minha mãe tinha seus ataques habituais e caia em cima da cama com um ar tão fantasmagórico que quase parecia já estar morta. Perguntei-te então que podia fazer por ti e foi então que me respondestes o que eu já esperava.
- Abandonem, abandonem esta casa… Não acham que já foi derramado sangue a mais de inocente?
- Sangue… que sangue foi derramado nesta casa? Que mentes foram corrompidas?
Mas a única resposta que fui capaz de obter foi um silencio arrepiante que se prolongou por toda a noite. No dia seguinte a primeira coisa que fui fazer foi implorar a meu pai que abandonasse-mos essa estranha casa na qual eu estava familiarizado desde meu nascimento. Mas meu pai era como os outros homens, preocupava-se primeiro com o dinheiro e era incapaz de entender o porquê de deixar-mos a casa na qual eu tinha crescido e ainda por cima não receber dinheiro em troca desta. O que nada pode responder de plausível pois nem eu sabia bem ao certo. Foi assim que se encerrou o assunto por hoje, mas isso não significava uma perda, agora dedicava-me inteiramente de corpo e mente a tentar arranjar uma forma de abandonar-mos finalmente esta casa e assim poder ajudar-te. Dias após dias tive respostas negativas de meu pai que cada vez mais me odiava. Discutia-mos todo o dia e depois ele saia da sala com a cara toda vermelha e perdigotos a caírem-lhe pela barba. Parecia impossível que meu pai fosse tão teimoso em relação a deixar esta casa já que ele não tinha o mesmo amor e dedicação a ela que minha amada mãe. Tudo pareceu um sonho tornado realidade quando, após a lua ter completado a sua viajem, meu pai acabou por concordar comigo. Mesmo assim fui capaz de ver na sua cara um misto de pena e de fúria. Mas isto de nada me importou, sempre tinha sido uma pessoa calma capaz de suportar qualquer tipo de olhar frio e, embora agora pareça-me impossível, naquela altura a última coisa que menos me importava era com o facto de eu e meu pai ser-mos incapazes de manter uma conversa por mais de dez minutos e de este constantemente olhar para mim de uma forma estranha. A verdade é que eu, mais do que ele, tinha mudado, estava cada vez mais distante, sarcástico, filosóficos e não podia compreender como alguma vez tinha pertencido a este mundo. Lembro-me que antes de sair com as malas, tu, pela primeira vez olhas-te para mim com olhos de como quem olha para um amigo a qual é capaz de relatar tudo. Nesta altura trocamos olhares e falamos com o coração e não com a boca.
- Obrigada - proferistes tu e depois desviastes teus olhos verde alface dos meus e desaparecestes no meio do relvado queimado pelo sol. Podia ter acabado tudo aqui se a minha curiosidade não tivesse levado avante e eu tivesse decidido seguir-te. Meu pai ainda disse qualquer coisa mas eu, com a minha mente a voar cada vez mais longe fui incapaz de o ouvir. Quando cheguei ao fim do quintal a única coisa que cheguei a presenciar foi tu, feito uma aparição atravessando o tronco de uma árvore morta em direcção a sabe se lá onde... Aí olhei em meu redor e vi muitas outras árvores que assim como aquela tinham sido cortadas pelo meu pai num ataque de loucura inicial após a morte da minha mãe. Lembro-me ainda de reclamar utilizando o bom nome desta, mas de nada serviu. E com os olhos cobertos de lágrimas olhei para aquelas árvores e nelas não vi apenas simples árvores vi também o teu rosto e, por uns minutos, pareceu-me ver sobreposto com tua face pálida a de minha mãe. Mas claro que de certeza que devia estar a imaginar… E, dito isso, regressei ter com meu pai.
« FIM »